"NÓIS SOFRE, MAS NÓIS GOZA"
Tarcísio
Pereira, o grande livreiro do Recife, não joga a toalha nunca. E por que teria
de jogar? Agora, no Carnaval de 2013,
novamente, colocou o bloco “Nóis Sofre , mas Nóis Goza” na rua, mais especificamente na Rua Sete de Setembro
, no Recife. ( Vejam a fotografia)
O
Nóis Sofre... surgiu na década de 1970, mais especificamente em 1976. Apareceu do nada, geração absolutamente espontânea, diriam os “biólogos do Carnaval”.
A Livro Sete,
que naquele ano funcionava num casarão
branco na rua homônima, era o
ponto de encontro e de alívio intelectual, sempre a partir de 16 horas. “Gente
da melhor qualidade” – na gíria de então- reunia-se ali no casarão para saber das novidades literárias, das
prisões ocorridas, da nova edição do jornal Opinião e, como sempre, para
fofocar... Parece que, numa dessas tardes, uma parte desses assíduos
frequentadores perguntou a Tarcísio se ele toparia fazer um “bloco de sujos”,
que sairia do Casarão até o Pátio de São Pedro, mas sem orquestra de frevo sem
nada. O toque seria apenas de latas...
Mas, como se chamaria esse “bloco”?
Contou-me
José Mário Rodrigues, o poeta que Ângelo Monteiro chamava de “ O Incomensurável”,
que certa vez, indo para Itamaracá, num ônibus que saía de hora em hora, de uma
parada à beira do rio Capibaribe, sempre lotadíssimo, observou uma cena e ao
final colocou no seu inseparável “caderninho de anotações poéticas”. A cena:
duas mulheres, bem populares e gordas, estavam em pé, naquela “lata de
sardinhas Coqueiro”. Quando passava algum passageiro para descer,
obrigatoriamente aquelas senhoras eram comprimidas contra as cadeiras ou o ombro
do passageiro que estava sentado.
Durante várias vezes, a cena
repetiu-se. E aí, subitamente, uma das mulheres virou-se para outra e disparou
esta: “Neguinha, que aperto da gota serena!” E a outra prontamente respondeu: “E´mermu! Mas, nóis sofre, neguinha, mais nóis goza.”
Estava
ali, naquele curto diálogo inusitado, o título do “Bloco de Tarcísio”, como
ainda hoje é conhecido. Naquela
frase-título havia muita ironia, inclusive para os tempos de sofrimento pelo
qual passavam os intelectuais pernambucanos naquela fatídica década. Sofrimento
o ano inteiro, com perseguições, prisões, censura, proibições diversas, mas gozo no
sábado de Zé Pereira, pelas ruas do Recife. ( "Mas é Carnaval, não me diga mais quem é você...!", cantávamos)
Vi
o segundo “desfile” do Nóis Sofre... Lembro de algumas coisas que ocorreram na “concentração”
do Bloco no casarão branco. Duas dessas coisas ressaltaria aqui. A primeira foi
a confecção do “estandarte”,cujo desenho foi feito, na hora, pelo artista
plástico Cavani Rosas. A segunda, o prof. sempre sisudo, Josemir Camilo-
atualmente lotado na UFPB/Campina Grande- carregando, e fazendo “acrobacias” pelas
ruas, o estandarte improvisado. Tomei
muita cerveja naquele sábado de 1977 e esqueci dos outros detalhes. Quando
lembrar desses “outros detalhes” continuarei essa quase crônica...
Nesta última foto, estou "marcando presença" em 2013 . Neste ano, o bloco homenageou o Grande Brasileiro Joaquim Barbosa, conforme pode ser visto na foto acima.
Na primeira foto, meus amigos Lúcia Cristina ( geógrafa) e Gilberto ( professor). Eles não perdem um só desfile. Vão até de maca...