4.5.08

VIOLÃO MUDO
( Carta enviada a Cláudio Almeida, um excelente violonista e compositor pesqueirense)

Meu Querido amigo e conterrâneo Cláudio Almeida,

A notícia da morte de Eurivinha me foi dada vários dias depois, pelo meu irmão, Luciano. Pouparam-me dessa coisa desagradável que é saber que os nossos estão indo, ninguém sabe mesmo aonde... Na hora que me deram a notícia, minha reação foi aquela frase idiota que sempre dizemos: não é possível!!!!
Eurivinha era meu primo legítimo. Seu pai era um conhecidíssimo e humilde relojoeiro, carinhosamente chamado de "seu Netinho!" Netinho era meu tio. A mãe de Eurivinha era conhecida, em Pesqueira, por adorar fazer serenata- isso numa época em que a mulher era absolutamente "do lar”- pelo vozeirão que possuía e pelo amor à vida e sobretudo à música! Sou, portanto, dessa espécie em extinção, ou seja, de uma família que em vez de viver se autodestruindo por migalhas ou luta pelo poder, se deliciava com encontros musicais que eram feitos, com carinho ,na casa de seu Netinho....
Meu primeiro contato com violão foi através de Eurivinha. Meu pai, Emídio, gostava de patrocinar, entre aspas, a vinda de Eurivinha à Vitória de Santo Antão. Passava dias lá em casa e, geralmente, no final de semana, a festa rolava. Eu, com meus poucos anos de idade, menos de uma dezena, para ser mais preciso, ficava impressionado com aquela agilidade com que Eurivinha, sempre risonho e com uma respiração ofegante, mexia com os dedos nos trastes do violão. Quando havia uma pausa para o almoço, eu corria e tentava , na minha ingenuidade infantil, imitá-lo ao violão... Frustração total! Era impossível. O resultado era que eu mexia na afinação, e quando voltavam para a farra, as cordas estavam desafinadas. Eurivinha me olhava, sorria, e dizia: "Emídio, Vaninho ainda vai tocar violão."
Não deu outra. Aquele violão de Eurivinha me enfeitiçou. E jamais esqueci "Sons de Carrilhões".
Eurivinha foi um grande Violonista, da escola fiel de Dilermando Reis. Encantou as noites pesqueirenses. Mas merecia ter tido um certo destaque. Não o teve. Como não têm os grandes homens que são humildes. E Eurivinha era acima de tudo humilde demais. Morreu pobre, solitário e certamente com profunda melancolia. A solidão da velhice é uma coisa terrível. Antes o suicídio... E´uma morte mais digna! Fruto de uma decisão estabelecida com revolta...
Há uns anos ele esteve aqui no Recife. Ficou comigo uns dias. Falou-me que estava com o colesterol alto. Resolvi ajudá-lo. Fui até o Hospital das Clínicas e consegui, com amigos, um monte de exames para ele. Estavam alteradas as taxas... Mas ele viajou e eu fiquei de enviar uns CDs para ele, mas ele me disse que não mandasse. Eurivinha só tinha "radiola"! Como aquilo me doeu... Pensei em dar um aparelho de CD para ele. O meu tempo corrido, de cidadão e professor de cidade imensa, me impediu essa iniciativa, tão simples. E perdi contato com ele.
Às vezes, quando fazia excursão com meus alunos da UFPE, inventava um "motivo" para entrar em Pesqueira. Aí eu passava na frente da casa dele, na frente da casa de Rinaldo Jatoba, no hospital, que o meu primo e irmão dele, médico ( Genivaldo), morto prematuramente, dirigiu com tanto esmero... na busca de um tempo para sempre perdido. Não pude desfrutar do violão de Eurivinha em noitadas pesqueirenses. Outros, sim, tiveram essa sorte...
Só sei que um violão emudeceu! Os dedos de um violonista ,que para mim foi um dos grandes, estão rígidos, imóveis.... Que acordes sairão agora daquelas mãos frias, calmas e mortas? Em que espaço estarão os "Sons de Carrilhões", as valsas, os choros ... que sairam daquelas mãos ágeis e do violão humilde?
Talvez haja uma nova estrela brilhando no céu límpido de uma noite pesqueirense. Talvez algum velho boêmio , solitário, amante da boa míusica, resolva cantar um samba-canção, do desespero dos abandonados, num banco da Praça de Santa Águeda.... Talvez, o violão mudo transforme-se em instrumento vivo, e nele os dedos ágeis de Eurivinha, na imaginação dos sensíveis, voltem a compor acordes de Sol maior, Do menor, sem dissonância nenhuma e desperte a cidade, lembrando que é hora de trabalhar, e que a vida segue inexorável... Quem sabe se esses acordes tradicionais e os sons dos bordões não irão também acordar os pássaros ainda existentes nas Matas da serra do Ororobá? Se assim for, teremos na praça um grande coro, com sons celestiais, pássaros e cantos de bêbados retardatários...
Um abraço do amigo e admirador
Lucivânio Jatobá

3 comentários:

Tania França disse...

Vaninho, sempre achei um desperdício você, com tanta coisa bonita escrita, não atualizar seu blog!
Que maravilha! Parabéns! Vou indicá-lo para minha lista de pesqueirenses perdidos por este Brasil afora!

djanirasilva disse...

Foi uma inspiração, talvez orquestrada por Eurivinha, que me fez entrar no blog. Que crônica extraordinária. E você se pergunta onde estará o grande violonista. Ele está na nossa memória, no coração de todos que o conheceram. É assim que o artista torna-se imortal, é através de sua obra e sensibilidade que nunca morrerá. Meu pai foi grande amigo do seu e algumas vezes o visitamos em Vitória depois que ele saiu de Pesqueira.
Estou em estado de graça por ter lido uma crônica escrita com as cordas do coração. Cada um toca o instrumento que sabe. Parabéns, parabéns mesmo. Não sou de muitos elogios e isto que estou fazendo é apenas reconhecer um escritor que talvez não se reconheça como tal. Um grande abraço e ficarei sempre atenta a qualquer nova matéria. Não deixe de atualizar seu blog. Se quiser visitar o meu será um grande prazer - blogdjanirasilva.blogspot.com
Um grande abraço pesqueirense Djanira Silva

Walter Jorge de Freitas disse...

Tânia indicou e eu estou chegando para dar os meus parabéns pelo blog. Vou visitar e se possível, dar os meus "pitacos", pode ser?
WALTER JORGE DE FREITAS